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| Imagem de divulgação que virou capa |
Começou
na última semana de Agosto, com a publicação da última edição da série Flashpoint, a renovação dos quadrinhos
da editora DC Comics – dona de heróis bastante famosos e presentes na cultura
popular há décadas, como, por exemplo, o Batman, a Mulher-Maravilha, o Arqueiro
Verde, o Lanterna Verde, o Flash e, claro, o Super-Homem. Ao longo do mês de
Setembro, foram lançados semanalmente blocos de revistas desses personagens – e
de outros – reformulando-se não apenas a “vida” desses personagens, mas a
própria editora e seus selos menores[1]. Uma
dessas revistas, a mais aguardada, traria a “total reformulação do Super-Homem”:
Action Comics #1.
O encarregado
de tal reformulação, Grant Morrison, informou antes do lançamento que o
uniforme do Homem de Aço seria reformulado:
Com o que nós estamos fazendo ele usa
uma camiseta e uma calça jeans. Uma versão Bruce Springsteen do Superman, esse
é o ângulo que nós estamos trabalhando. A capa ainda é indestrutível, mas o
resto é comprado em uma loja.[2]
De fato,
conforme se pode ver na imagem mais acima, a inexistência da icônica cueca vermelha
por cima da calça – que o mundo se acostumou a ver, por fazer parte de um
uniforme, na cor azul – é, por si só, uma grandiosa – e arriscada –
reformulação do herói. Porém, após esse teaser, algumas questões pipocaram: como
mudar um mito mantendo-o, ainda, um mito? Que outras mudanças poderiam ser feitas que não descaracterizassem o
personagem que nos acostumamos a ver? E o mais importante: como seria seu
padrão moral, sua marca registrada?
A revista foi publicada
no dia 7 de Setembro, tanto no papel quanto virtualmente, vendendo mais de
200.000 cópias[3].
Sendo assim, podemos concluir que é um sucesso comercial – algo que o
personagem merecia. Mas e quanto ao argumento do Grant Morrison? Faria justiça
ao personagem?
O primeiro
ponto a perceber é que, como toda epopéia, esta Action Comics começa in media
res, isto é, no meio “da coisa”. A história não se importa com o início do
personagem, assim como a Ilíada, de
Homero, não se importa com o começo da Guerra de Troia: apenas um momento é
escolhido para ser representado, o que levou Aristóteles, de certa forma, a
elaborar sua teoria de que a poesia é maior do que a história, assim como a de
que um texto poético deveria conter uma unidade de tempo e de ação. Grant
Morrison respeita, digamos assim, esse preceito clássico: a história começa com
uma reunião de homens de negócios que é interrompida pelo Escoteiro Azulado.
Logo de início
vemos uma mudança no personagem que nos causa estranheza, uma sensação de
calafrio que nos faz nos perguntar se acaso o conhecemos de fato: sua primeira
frase é um ataque aos tais homens. “Rats. Rats with Money. [Ratos. Ratos com
dinheiro.][4]”, ele
diz. Lembremos que o Super-Homem, assim como o Capitão América (da concorrente
Marvel Comics), foi usado como exemplo moral e educacional: seus quadrinhos
funcionaram como novelas da Rede Globo, pois “invadiam” as casas de família e,
por isso, deveria mostrar valores dignos de serem copiados e admirados – como qualquer
personagem heróico moderno, certo?
Pois bem, nem
tanto. Se pensarmos no valor de heroísmo que possuímos hoje, somos obrigados a
nos remetermos aos Gregos antigos – novamente. A Ilídia, já citada, é o relato de Aquiles e sua vitória sobre seu
inimigo, algoz do seu grande amigo (e, talvez, companheiro amoroso). A lógica heróica
grega parte do princípio apolíneo: seja o que tu és. Em outras palavras,
conforme-se com o que você é, não busque ultrapassar sua essência, ser mais do
que já é ou ser outra coisa. Por conta do orgulho humano, os acontecimentos na
epopéia homérica se movem: dificilmente o herói, sabendo-se herói (como
Aquiles) ou sentindo-se herói (como Pátroclo), se conforma com seus feitos ou
em ser quem é. Ele deseja, sempre, mais. Isso era real para os Gregos antigos,
isso continua real hoje em dia e o novo Super-Homem é um valioso exemplo desse
conceito.
Primeiro, o sorriso
cínico no rosto. Seu feitio jovial nesta história casa com a idéia de que ele “has
appeared six months ago” (MORRISON, 2011, p. 15), ou seja, está em início de
carreira. Sendo jovem, é mais crível que o personagem se encante com seus
(recém-descobertos?) poderes. O general que o espia através de câmeras
espalhadas “big-brothermente” ao redor de Metropolis comenta que seus poderes
aumentaram nos últimos seis meses (MORRISON, 2011, p. 15). O acreditar quase
infantil em si mesmo está presente nesse sorriso quando diz aos capangas
armados do magnata “I’m your worst nightmare. [Sou seu pior pesadelo.]” (MORRISON,
2011, p. 5), assim como quando pula do prédio com o tal magnata em punhos para
fazê-lo falar (MORRISON, 2011, p. 9) ou mesmo quando encara os policiais que
apontam suas armas para ele (MORRISON, 2011, p. 11) – e ele sabe que elas não
hão de lhe causar mal algum. O novo Super-Homem é um garoto que percebeu que
possui poderes, que pode usá-los para o bem público, mas que, por imaturidade e
por ego, usa-os da forma como quer ou acha certo – sem pensar muito nisso. Suas
atitudes são imprudentes – e, mesmo assim (ou talvez justamente por isso!), heróicas.
Segundo, a hybris. Esse conceito provém da idéia do
orgulho humano que a tudo quer abraçar. A hybris
é como que o erro cometido pelas pessoas que se julgam maiores do que na
verdade são – aquelas que ultrapassam a linha do “seja o que tu és”. Aquiles,
na epopéia, recusa-se a aceitar o pedido de desculpas de Agamemnom por
acreditar-se mais valoroso do que um mero mortal – mesmo que esse mortal seja o
Rei dos reis. Tal ato, de certa forma, faz com que Pátroclo vista sua armadura,
fingindo ser Aquiles, e fazendo com que destemidos guerreiros troianos fujam de
volta para a cidade inicialmente sitiada. Porém, acreditando-se poderoso por
apenas vestir a armadura heróica, Pátroclo continua à busca dos tais guerreiros,
ou seja, ele próprio comete uma hybris;
e, uma vez descoberta a farsa, luta contra Heitor e morre por suas mãos.
O novo
Super-Homem também corre o risco de cometer hybris
– e acaba cometendo-a ao longo da edição. Ele se julga superior aos humanos que
o perseguem, desrespeitando seu poder legitimador de agir conforme a lei – e caçar
vigilantes como ele próprio. Ao sacudir a bola de ferro e jogá-la de volta
contra um tanque, amassando-o (MORRISON, 2011, p. 20), ele baixa a guarda e
recebe em cheio uma rajada de canhão que o joga ao chão. Isso quase o nocauteia
e, se não o faz, deixa-o ligeiramente atordoado. Só não é capturado pelos
militares porque sua boa ação de salvar indigentes levou estes a protegerem-no
até se recompor. Posteriormente, para salvar seu amigo, Jimmy Olsen,
acredita-se o único a parar o trem minado: “This train won’t stop, unless I make it stop. [Este trem não vai parar, a não ser que eu
o faça parar.]” (MORRISON, 2011, p.
31). É justamente a sua hybris que o
leva a quase ser capturado inicialmente, porém é ela que o exaure de suas
forças por conta do esforço hercúleo e o faz ser capturado, por fim.
Terceiro, a
vulnerabilidade. Diferentemente do Super que conhecemos, este aqui se fere. Ao
tentar parar o trem, seu ouvido sangra (MORRISON, 2011, p. 32). Ao lutar contra
a bola de ferro do aparato destruidor militar, seu rosto se enche de hematomas
(MORRISON, 2011, p. 21). Ele é um herói que ainda não sabe ser herói, digamos.
Que está aprendendo sobre seus poderes crescentes que está se acostumando a ser
uma máquina de guerra em prol de... alguma coisa.
Aqui, as
características das epopéias explicitadas nos parágrafos anteriores
distanciam-se da análise, pois as atitudes
morais deste Super-Homem mostram-se
como a grande mudança quanto ao seu eu conhecido até então. Se antes ele agia
como um paladino da Justiça, um herói Iluminista em prol da Justiça absoluta –
conceito inatingível, conforme podemos ver em todo e qualquer regime político
sobre o planeta – agora não mais conseguimos discernir sua defesa de tal
conceito.
Para começar,
sua atuação como “interrogador”. Ele pega o magnata de cuja culpa está
convencido, coloca-o no ombro e pula da sua cobertura ao chão. Não apenas ele responde
ao apelo de ajuda do magnata (“Somebody! Help me!”) com um seco “Because that
ain’t Superman. [Porque esse alguém não é o Super-Homem.]” (MORRISON, 2011, p.
7), como ainda por cima ele, demonstrando saber que os trens vão explodir,
aceita apenas informar as autoridades (MORRISON, 2011, p. 29) (pois, sendo um
jornalista investigativo, ele teria
algum precedente para que as pessoas acreditassem nele).
O grande
problema dessas duas cenas – às quais poderíamos acrescentar a bola de ferro
que ele joga contra o tanque que o atacou inicialmente – é que o caráter do
Homem de Aço mudou consideravelmente. Antes, ele reclamava da forma de que o
Batman agia. Agora, ele próprio age assim. Ao acreditar na culpa do magnata,
ele não se importa em como fazê-lo
falar. Não vai demorar muito, seus métodos de tortura tornar-se-ão mais
físicos. Igualmente no caso da luta: os militares estão seguindo ordens de seus
superiores e, antes de tudo, são seres humanos. Quer eles estejam fazendo um
mal por seguir ordens, quer não (como no caso do magnata), se a idéia do Superman é lutar para provar que “the law
works the same for rich and poor alike. [a lei age igualmente para os ricos e
para os pobres.]” (MORRISON, 2011, p. 6), então sua forma de lutar está
incrivelmente errada. Isso porque não apenas ele está agindo sobre a lei (afinal, é proibido agir
como vigilante, assim como é proibido jogar-se de um prédio segundo uma pessoa contra
a qual não se tem provas), como ele não está se importando com os seres humanos
que agem de forma errada (por conta dos seus superiores ou do seu bel prazer).
Este
Super-Homem, podemos concluir, despreza os humanos que fogem da sua linha
moral. Ele virou um utilitarista, alguém para o qual os fins importam mais do
que os meios. A grande diferença entre o Super-Homem e o Batman era que o
kyptoniano acreditava na verdade, tanto que nunca escondeu o rosto sob uma
máscara e trabalhava como um jornalista (que agia de forma ética ao denunciar
aquilo de podre que descobria/testemunhava). Acreditava no sistema judiciário
humano e obviamente que não pela sua eficácia. Afinal, sabemos quantos
criminosos fugiam da cadeia ou escapavam dos braços da lei. Ele acreditava no
sistema judiciário, pois era uma obrigação acreditar nele – senão, só nos
restaria o niilismo do Coringa. Mesmo quando agia com força bruta, sua
intenção, conforme sua ação contra os capangas do magnata demonstraram (MORRISON,
2011, p. 5-6), era imobilizá-los até que a polícia chegasse. Seu jeito de agir era
tão radical que Frank Miller colocou-o justamente como marionete dos Estados
Unidos na grandiosa graphic novel do
Batman “O Cavaleiro das Trevas”: ele precisava agir sob ordens de quem
encarnava o Poder vigente. O Batman precisa de escuridão para agir: não acreditam
nele em sua cidade, e mesmo que acreditassem a corrupção vendaria a Justiça,
então ele age por trás dos bastidores, mexendo com os podres dos outros,
correndo o risco, parafraseando Nietzsche, de, ao olhar para o abismo, acabar
descobrindo que o abismo também olha para ele. O Super, ao contrário, nunca
precisou das trevas: age sob a luz da Sol e, logo, da Verdade.
Grant Morrison
de fato relançou o Super-Homem. Não é apenas a cueca vermelha que sumiu –
outras características básicas do herói também sumiram. A questão agora é: como
será que este homem com poderes irá se tornar a lenda de Metropolis – e,
metonimicamente, do planeta? Como alguém que se julga superior e responsável
por um determinado código moral pode vir a se tornar um exemplo para os outros?
O meu medo é que o caminho mais óbvio seja o escolhido: que Grant Morrison
acabe agindo conforme Nietzsche demonstrou em sua Genealogia da Moral: que o fraco se acredite bom (por ver alguém mais
forte que ele, neste caso do Super-Homem, agindo contra aqueles que são
chamados de maus) e mitifique seu “salvador”. Em outras palavras, que o
Super-Homem se torne o novo Jesus Cristo da Metropolis cheia de violência e
corrupção, como muita cidade grande no planeta.
[1] Acerca
disso, fiquemos com o exemplo do selo Vertigo, famoso por personagens que,
embora menos massificados, não deixavam de ser famosos – como Morpheus (o
Sandman), John Constantine, Preacher, Monstro do Pântano etc. – por serem
retratados em histórias mais adultas – e muitas vezes em séries ou mini-séries
mais ou menos fechadas. Pois bem, tal selo “morreu” e suas publicações agora
farão parte do total de 52 revistas mensais da editora DC. O Monstro do Pânico
sobreviveu a essa reformulação, mas o que foi feito do Constantine?
[2]
MORRISON, Grant. Entrevista concedida ao
jornal Metro. UK: London,
Associated Publishers, 2011. Disponível em <http://www.metro.co.uk/lifestyle/869082-superman-writer-grant-morrison-i-taught-robbie-williams-magic>.
[4] MORRISON, Grant; MORALES, Rags;
BRYANT, Rick. Action Comics #1. New
York: DCComics, 2011. Pg. 4.

Super-Herois e Contemporaneidade: Diálogos Filosóficos.
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