quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O Novo Super-Homem e a Moral


Imagem de divulgação que virou capa
Começou na última semana de Agosto, com a publicação da última edição da série Flashpoint, a renovação dos quadrinhos da editora DC Comics – dona de heróis bastante famosos e presentes na cultura popular há décadas, como, por exemplo, o Batman, a Mulher-Maravilha, o Arqueiro Verde, o Lanterna Verde, o Flash e, claro, o Super-Homem. Ao longo do mês de Setembro, foram lançados semanalmente blocos de revistas desses personagens – e de outros – reformulando-se não apenas a “vida” desses personagens, mas a própria editora e seus selos menores[1]. Uma dessas revistas, a mais aguardada, traria a “total reformulação do Super-Homem”: Action Comics #1.
O encarregado de tal reformulação, Grant Morrison, informou antes do lançamento que o uniforme do Homem de Aço seria reformulado:
Com o que nós estamos fazendo ele usa uma camiseta e uma calça jeans. Uma versão Bruce Springsteen do Superman, esse é o ângulo que nós estamos trabalhando. A capa ainda é indestrutível, mas o resto é comprado em uma loja.[2]
De fato, conforme se pode ver na imagem mais acima, a inexistência da icônica cueca vermelha por cima da calça – que o mundo se acostumou a ver, por fazer parte de um uniforme, na cor azul – é, por si só, uma grandiosa – e arriscada – reformulação do herói. Porém, após esse teaser, algumas questões pipocaram: como mudar um mito mantendo-o, ainda, um mito? Que outras mudanças poderiam ser feitas que não descaracterizassem o personagem que nos acostumamos a ver? E o mais importante: como seria seu padrão moral, sua marca registrada?
A revista foi publicada no dia 7 de Setembro, tanto no papel quanto virtualmente, vendendo mais de 200.000 cópias[3]. Sendo assim, podemos concluir que é um sucesso comercial – algo que o personagem merecia. Mas e quanto ao argumento do Grant Morrison? Faria justiça ao personagem?
O primeiro ponto a perceber é que, como toda epopéia, esta Action Comics começa in media res, isto é, no meio “da coisa”. A história não se importa com o início do personagem, assim como a Ilíada, de Homero, não se importa com o começo da Guerra de Troia: apenas um momento é escolhido para ser representado, o que levou Aristóteles, de certa forma, a elaborar sua teoria de que a poesia é maior do que a história, assim como a de que um texto poético deveria conter uma unidade de tempo e de ação. Grant Morrison respeita, digamos assim, esse preceito clássico: a história começa com uma reunião de homens de negócios que é interrompida pelo Escoteiro Azulado.
Logo de início vemos uma mudança no personagem que nos causa estranheza, uma sensação de calafrio que nos faz nos perguntar se acaso o conhecemos de fato: sua primeira frase é um ataque aos tais homens. “Rats. Rats with Money. [Ratos. Ratos com dinheiro.][4]”, ele diz. Lembremos que o Super-Homem, assim como o Capitão América (da concorrente Marvel Comics), foi usado como exemplo moral e educacional: seus quadrinhos funcionaram como novelas da Rede Globo, pois “invadiam” as casas de família e, por isso, deveria mostrar valores dignos de serem copiados e admirados – como qualquer personagem heróico moderno, certo?
Pois bem, nem tanto. Se pensarmos no valor de heroísmo que possuímos hoje, somos obrigados a nos remetermos aos Gregos antigos – novamente. A Ilídia, já citada, é o relato de Aquiles e sua vitória sobre seu inimigo, algoz do seu grande amigo (e, talvez, companheiro amoroso). A lógica heróica grega parte do princípio apolíneo: seja o que tu és. Em outras palavras, conforme-se com o que você é, não busque ultrapassar sua essência, ser mais do que já é ou ser outra coisa. Por conta do orgulho humano, os acontecimentos na epopéia homérica se movem: dificilmente o herói, sabendo-se herói (como Aquiles) ou sentindo-se herói (como Pátroclo), se conforma com seus feitos ou em ser quem é. Ele deseja, sempre, mais. Isso era real para os Gregos antigos, isso continua real hoje em dia e o novo Super-Homem é um valioso exemplo desse conceito.
Primeiro, o sorriso cínico no rosto. Seu feitio jovial nesta história casa com a idéia de que ele “has appeared six months ago” (MORRISON, 2011, p. 15), ou seja, está em início de carreira. Sendo jovem, é mais crível que o personagem se encante com seus (recém-descobertos?) poderes. O general que o espia através de câmeras espalhadas “big-brothermente” ao redor de Metropolis comenta que seus poderes aumentaram nos últimos seis meses (MORRISON, 2011, p. 15). O acreditar quase infantil em si mesmo está presente nesse sorriso quando diz aos capangas armados do magnata “I’m your worst nightmare. [Sou seu pior pesadelo.]” (MORRISON, 2011, p. 5), assim como quando pula do prédio com o tal magnata em punhos para fazê-lo falar (MORRISON, 2011, p. 9) ou mesmo quando encara os policiais que apontam suas armas para ele (MORRISON, 2011, p. 11) – e ele sabe que elas não hão de lhe causar mal algum. O novo Super-Homem é um garoto que percebeu que possui poderes, que pode usá-los para o bem público, mas que, por imaturidade e por ego, usa-os da forma como quer ou acha certo – sem pensar muito nisso. Suas atitudes são imprudentes – e, mesmo assim (ou talvez justamente por isso!), heróicas.
Segundo, a hybris. Esse conceito provém da idéia do orgulho humano que a tudo quer abraçar. A hybris é como que o erro cometido pelas pessoas que se julgam maiores do que na verdade são – aquelas que ultrapassam a linha do “seja o que tu és”. Aquiles, na epopéia, recusa-se a aceitar o pedido de desculpas de Agamemnom por acreditar-se mais valoroso do que um mero mortal – mesmo que esse mortal seja o Rei dos reis. Tal ato, de certa forma, faz com que Pátroclo vista sua armadura, fingindo ser Aquiles, e fazendo com que destemidos guerreiros troianos fujam de volta para a cidade inicialmente sitiada. Porém, acreditando-se poderoso por apenas vestir a armadura heróica, Pátroclo continua à busca dos tais guerreiros, ou seja, ele próprio comete uma hybris; e, uma vez descoberta a farsa, luta contra Heitor e morre por suas mãos.
O novo Super-Homem também corre o risco de cometer hybris – e acaba cometendo-a ao longo da edição. Ele se julga superior aos humanos que o perseguem, desrespeitando seu poder legitimador de agir conforme a lei – e caçar vigilantes como ele próprio. Ao sacudir a bola de ferro e jogá-la de volta contra um tanque, amassando-o (MORRISON, 2011, p. 20), ele baixa a guarda e recebe em cheio uma rajada de canhão que o joga ao chão. Isso quase o nocauteia e, se não o faz, deixa-o ligeiramente atordoado. Só não é capturado pelos militares porque sua boa ação de salvar indigentes levou estes a protegerem-no até se recompor. Posteriormente, para salvar seu amigo, Jimmy Olsen, acredita-se o único a parar o trem minado: “This train won’t stop, unless I make it stop. [Este trem não vai parar, a não ser que eu o faça parar.]” (MORRISON, 2011, p. 31). É justamente a sua hybris que o leva a quase ser capturado inicialmente, porém é ela que o exaure de suas forças por conta do esforço hercúleo e o faz ser capturado, por fim.
Terceiro, a vulnerabilidade. Diferentemente do Super que conhecemos, este aqui se fere. Ao tentar parar o trem, seu ouvido sangra (MORRISON, 2011, p. 32). Ao lutar contra a bola de ferro do aparato destruidor militar, seu rosto se enche de hematomas (MORRISON, 2011, p. 21). Ele é um herói que ainda não sabe ser herói, digamos. Que está aprendendo sobre seus poderes crescentes que está se acostumando a ser uma máquina de guerra em prol de... alguma coisa.
Aqui, as características das epopéias explicitadas nos parágrafos anteriores distanciam-se da análise, pois as atitudes morais deste Super-Homem mostram-se como a grande mudança quanto ao seu eu conhecido até então. Se antes ele agia como um paladino da Justiça, um herói Iluminista em prol da Justiça absoluta – conceito inatingível, conforme podemos ver em todo e qualquer regime político sobre o planeta – agora não mais conseguimos discernir sua defesa de tal conceito.
Para começar, sua atuação como “interrogador”. Ele pega o magnata de cuja culpa está convencido, coloca-o no ombro e pula da sua cobertura ao chão. Não apenas ele responde ao apelo de ajuda do magnata (“Somebody! Help me!”) com um seco “Because that ain’t Superman. [Porque esse alguém não é o Super-Homem.]” (MORRISON, 2011, p. 7), como ainda por cima ele, demonstrando saber que os trens vão explodir, aceita apenas informar as autoridades (MORRISON, 2011, p. 29) (pois, sendo um jornalista investigativo, ele teria algum precedente para que as pessoas acreditassem nele).
O grande problema dessas duas cenas – às quais poderíamos acrescentar a bola de ferro que ele joga contra o tanque que o atacou inicialmente – é que o caráter do Homem de Aço mudou consideravelmente. Antes, ele reclamava da forma de que o Batman agia. Agora, ele próprio age assim. Ao acreditar na culpa do magnata, ele não se importa em como fazê-lo falar. Não vai demorar muito, seus métodos de tortura tornar-se-ão mais físicos. Igualmente no caso da luta: os militares estão seguindo ordens de seus superiores e, antes de tudo, são seres humanos. Quer eles estejam fazendo um mal por seguir ordens, quer não (como no caso do magnata), se a idéia do Superman é lutar para provar que “the law works the same for rich and poor alike. [a lei age igualmente para os ricos e para os pobres.]” (MORRISON, 2011, p. 6), então sua forma de lutar está incrivelmente errada. Isso porque não apenas ele está agindo sobre a lei (afinal, é proibido agir como vigilante, assim como é proibido jogar-se de um prédio segundo uma pessoa contra a qual não se tem provas), como ele não está se importando com os seres humanos que agem de forma errada (por conta dos seus superiores ou do seu bel prazer).
Este Super-Homem, podemos concluir, despreza os humanos que fogem da sua linha moral. Ele virou um utilitarista, alguém para o qual os fins importam mais do que os meios. A grande diferença entre o Super-Homem e o Batman era que o kyptoniano acreditava na verdade, tanto que nunca escondeu o rosto sob uma máscara e trabalhava como um jornalista (que agia de forma ética ao denunciar aquilo de podre que descobria/testemunhava). Acreditava no sistema judiciário humano e obviamente que não pela sua eficácia. Afinal, sabemos quantos criminosos fugiam da cadeia ou escapavam dos braços da lei. Ele acreditava no sistema judiciário, pois era uma obrigação acreditar nele – senão, só nos restaria o niilismo do Coringa. Mesmo quando agia com força bruta, sua intenção, conforme sua ação contra os capangas do magnata demonstraram (MORRISON, 2011, p. 5-6), era imobilizá-los até que a polícia chegasse. Seu jeito de agir era tão radical que Frank Miller colocou-o justamente como marionete dos Estados Unidos na grandiosa graphic novel do Batman “O Cavaleiro das Trevas”: ele precisava agir sob ordens de quem encarnava o Poder vigente. O Batman precisa de escuridão para agir: não acreditam nele em sua cidade, e mesmo que acreditassem a corrupção vendaria a Justiça, então ele age por trás dos bastidores, mexendo com os podres dos outros, correndo o risco, parafraseando Nietzsche, de, ao olhar para o abismo, acabar descobrindo que o abismo também olha para ele. O Super, ao contrário, nunca precisou das trevas: age sob a luz da Sol e, logo, da Verdade.
Grant Morrison de fato relançou o Super-Homem. Não é apenas a cueca vermelha que sumiu – outras características básicas do herói também sumiram. A questão agora é: como será que este homem com poderes irá se tornar a lenda de Metropolis – e, metonimicamente, do planeta? Como alguém que se julga superior e responsável por um determinado código moral pode vir a se tornar um exemplo para os outros? O meu medo é que o caminho mais óbvio seja o escolhido: que Grant Morrison acabe agindo conforme Nietzsche demonstrou em sua Genealogia da Moral: que o fraco se acredite bom (por ver alguém mais forte que ele, neste caso do Super-Homem, agindo contra aqueles que são chamados de maus) e mitifique seu “salvador”. Em outras palavras, que o Super-Homem se torne o novo Jesus Cristo da Metropolis cheia de violência e corrupção, como muita cidade grande no planeta.


[1] Acerca disso, fiquemos com o exemplo do selo Vertigo, famoso por personagens que, embora menos massificados, não deixavam de ser famosos – como Morpheus (o Sandman), John Constantine, Preacher, Monstro do Pântano etc. – por serem retratados em histórias mais adultas – e muitas vezes em séries ou mini-séries mais ou menos fechadas. Pois bem, tal selo “morreu” e suas publicações agora farão parte do total de 52 revistas mensais da editora DC. O Monstro do Pânico sobreviveu a essa reformulação, mas o que foi feito do Constantine?
[2] MORRISON, Grant. Entrevista concedida ao jornal Metro. UK: London, Associated Publishers, 2011. Disponível em <http://www.metro.co.uk/lifestyle/869082-superman-writer-grant-morrison-i-taught-robbie-williams-magic>.
[4] MORRISON, Grant; MORALES, Rags; BRYANT, Rick. Action Comics #1. New York: DCComics, 2011. Pg. 4.

Um comentário:

Licença Creative Commons
This work by Rafael Ottati is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Compartilhamento pela mesma licença 3.0 Unported License.