domingo, 18 de setembro de 2011

A Fragilidade Muscular dos Mangás Japoneses


Os quadrinhos costumam retratar seus Super-Herois com uniformes colantes que deixam claro seus músculos dignos de atletas - ou deuses? - olímpicos. Os mangás, por sua vez, retratam seus protagonistas em roupas largas, com fisionomias franzinas (ou com músculos escondidos). Por quê? Qual o pensamento inerente a essa (falta de) verossimilhança?


Esta imagem pertence a Mikemaluk
Interessante comparar a arte quadrinística estadunidense com a oriental, especialmente focando-se o mangá japonês. Primeiro, uma questão metodológica: escolhi a arte norte-americana pois eles foram os verdadeiros inventores dos quadrinhos. Não quero dizer que eles inventaram o desenho em folha de papel – claro que não – mas que eles foram os responsáveis pela criaçao de revistas mensais e pela massificação das mesmas. A ideia de “quadrinhos” como um bloco com uma ou mais histórias de um determinao personagem ou mais. Indo além: eles popularizaram a ideia de heroi de quadrinhos.

Deixando a questão metodológica de lado, avancemos no foco da problematização de hoje. Observando-se a figura ao lado, retirada do site deviantart[1], podemos perceber que o super-homem representado por Mikemaluk respeita as características clássicas do personagem dos quadrinhos – a despeito da sua expressada ira.

Esqueçamos o palavrão dito – que ficaria melhor na boca do Batman ou do Lobo – mas foquemos a silhueta dele, sua representação corpórea. Os músculos, a altura, o corte de cabelo, a brancura dos dentes – a ridícula cueca acima da calça. Tudo na imagem nos remete ao Super que conhecemos das bancas de jornal há algumas décadas, certo? Agora vejamos o outro lado...
Esta imagem pertence a Sarah888

A arte aqui do lado direito[2] mostra um personagem razoavelmente famoso dos mangás japoneses: Kenshin – inclusive, seu anime (ou seja, o desenho animado) chegou a passar no Brasil – embora a Rede Globo, quando o passou, tenha mutilado seus episódios pela quantidade de sangue.

Olhando-se atentamente a imagem ao lado percebemos duas diferenças entre o personagem japonês e o kyptoniano: a arma e as roupas. O objeto pontiagudo não é utilizado pelo Homem de Aço, mas outros heróis dos quadrinhos valem-se de armas brancas, como o cacetete do Demolidor ou as flechas do Arqueiro Verde e do Hawkeye. A questão das roupas é o principal. 
 
Por um lado, o uniforme colante do Super-Homem delineia incrivelmente bem o volume dos seus músculos: ele aparenta seu verdadeiro tamanho; não esconde sua força muscular, isto é, seu aspecto de guerreiro, sua violência truculenta, enfim. Os bandidos deveriam temer o Super apenas por olharem para ele. O mesmo acontece com os outros heróis massificados oriundos dos EUA: dê uma olhada no Wolverine e responda com sinceridade: você teria coragem de encará-lo numa briga?

Por outro lado, a roupa do Kenshin não demonstra seus músculos – se é que ele os tem[3]. E aqui repousa a problemática dos quadrinhos japoneses: é comum os protagonistas mais poderosos serem retratados dessa forma, ou seja, dentro de roupas que os engolem ou, mesmo, de forma franzina, ilusória, ofuscada. A força deles é desvelada apenas durante a luta, durante o confronto.

A composição muscular do kryptoniano condiz com sua força, certo? Quando ele soca alguém, sua vítima normalmente voa através de alguns carros e paredes – miraculosamente sem quebrar muitos ossos no meio do caminho, pois é comum os vilões se erguerem novamente depois do impacto e continuarem a luta. Ele também consegue sem muita dificuldade arrancar portas de carros, retorcer metal com as mãos, levantar ou aparar objetos que pesam toneladas, enfim, todas as ações impressionantes de um super-humano.

Já o Kenshin... bom, quando olhamos a princípio para ele, sem termos conhecimento acerca de mangás e sua cultura, não acreditamos que ele conseguiria vencer uma luta contra um brutucu qualquer. Porém, Kenshin é mais do que Batman: não é apenas raciocínio. Ele tem, sim, treinamento físico, disciplina e força bruta. Ele consegue com sua espada cortar uma árvore se preciso for – mesmo embora sua espada seja diferente: ela não possui fio na parte de fora da lâmina, pois a personagem prometera nunca mais matar.

Passados à parte, lembremos do seriado Cavaleiros do Zodíaco. Quem acreditaria que o Seiya, logo no primeiro episódio, venceria o Cássio? A disparidade de tamanho entre os dois era absurda! Porém, não apenas Seiya venceu o Cássio – e com socos e chutes! – como ainda se mostrou mais rápido do que o som, assim como seu adversário alguns episódios mais à frente, Shiryu, mostrou-se capaz de inverter o fluxo de água de uma cachoeira com um único golpe! Com os exemplos levantados, quero deixar claro o caráter maravilhoso dos quadrinhos japoneses, que não perde em nada aos americanos.

Entretanto, seus personagens são franzinos, com roupas largas, penteados extravagantes ou exóticos e, algumas vezes, com feições afeminadas. Estes personagens enganam e provam-se heróicos[4] apenas durante as lutas, muitas vezes pegando não apenas os leitores mas seus próprios adversários desprevenidos. Em Yu Yu Hakusho, por exemplo, Toguro, um brutamontes no nível do Super-Homem, impressionou-se quando Yosuke conseguiu desferir-lhe um golpe potente.

A questão aqui é que os heróis americanos, no quesito aparência, são mais diretos-ao-ponto, isto é, demonstram mais a força que se espera deles nas lutas, seja através de fisioescultura, se me permitem o termo, seja através de figurinos colantes (ou armaduras com “músculos”). Existe, portanto, uma verossimilhança quanto à aparência. Diga a verdade: olhando a imagem do Super lá em cima, se ele socasse seu inimigo e ele não sentisse nada, sendo este uma pessoa qualquer, você se sentiria traído logo de início ou, no mínimo, esperaria uma explicação racional por isso, não é?

Talvez não seja absurdo dizer que essa verossimilhança existe na arte desde o Renascimento, quando os pintores estudavam anatomia humana para retratar melhor as pessoas que pintavam. Usavam como modelo as esculturas gregos, outra fonte de verossimilhança de aparência física. O detalhe é que ambos – a arte grega e a renascentista – focavam em um ideal: aquele porte físico era ideal, sonhado, desejado, querido. A indústria dos quadrinhos resgatou essa idéia e ainda hoje os manuais de desenho sugerem o estudo anatômico! Claro que há quadrinistas e quadrinistas, mas ainda é bastante comum vermos os heróis estadunidenses retratados como aquele Super-Homem da imagem.

O Japão, por outro lado, apostou no caminho filosófico oriental: a inverossimilhança dos personagens indica um outro ponto de vista. A intenção do artista oriental não é simplesmente enganar seus leitores. É claro que surpreende ver o Seiya apanhar tanto, com um vestuário que cobre tão parcamente seu corpo sendo chamado mesmo assim de “armadura”, e não morrer – ao contrário: ele se levanta e ainda vence a luta! Mesmo assim, não é a surpresa a intenção, mas dois ensinamentos orientais.

Primeiro, não se deve menosprezar aquele à sua frente. Não é o porte físico que indica a vitória, embora o uso da força pode vencer uma luta. A intenção é que a fragilidade deve ser demonstrada para que se impressione com os feitos desse herói pois devemos sempre lembrar que aquilo que não é aparente pode ser nossa derrota. Precisa-se cuidar do que não é visto, do que é escondido ou ofuscado pelas pessoas – sua força interior, por assim dizer.

Segundo, qualquer um pode ser assim – se treinar muito para isso. A ideologia do pensamento positivo, do acreditar em si mesmo etc., pode ser vista na tradição do orientalismo exemplarmente no longa animado “Kung Fu Panda”: o panda, protagonista da história, busca o tempo todo um “ensinamento milenar” que daria a ele poderes plenos de guardião do vilarejo, quando, no fundo, o pergaminho está em branco. Em outras palavras, seja quem você é que você consegue.

Ambos os ensinamentos estão inseridos na inverossimilhança dos quadrinhos japoneses, assim como na famosa história do “estilo do bêbado do Kung Fu”, em que mestres Kung Fu conseguem vencer lutas mesmo estando bêbados. Enquanto a indústria dos quadrinhos quer massificar a idéia de que um herói só pode salvar uma cidade com sua força se ele for extraordinariamente musculoso, a indústria japonesa massifica a idéia de que precisa-se ser mais reticente quanto a pré-julgamentos feitos acerca apenas da aparência das pessoas.

E aí: com qual dos dois lados você concorda?


[1] MIKEMALUK, Superman VS Sentry. DeviantArt, 2008, < http://mikemaluk.deviantart.com/art/Superman-VS-Sentry-99788171>, acessado em 18/09/2011.
[2] SARAH888, Kenshin Himura. DeviantArt, 2009, <http://sarah888.deviantart.com/art/Kenshin-Himura-123083330>, acessado em 18/09/2011.
[3] É claro que ele tem músculos, já que todas as pessoas os possuem. Minha dúvida é proveniente da “supremacia muscular visual” do Super-Homem frente ao Kenshin.
[4] Novamente, é apenas no sentido quadrinístico: heróico enquanto realiza feitos heróicos e sobre-humanos.

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