Os quadrinhos costumam retratar seus Super-Herois com uniformes colantes que deixam claro seus músculos dignos de atletas - ou deuses? - olímpicos. Os mangás, por sua vez, retratam seus protagonistas em roupas largas, com fisionomias franzinas (ou com músculos escondidos). Por quê? Qual o pensamento inerente a essa (falta de) verossimilhança?
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| Esta imagem pertence a Mikemaluk |
Deixando a questão metodológica de lado, avancemos no
foco da problematização de hoje. Observando-se a figura ao lado, retirada do
site deviantart[1], podemos
perceber que o super-homem representado por Mikemaluk respeita as
características clássicas do personagem dos quadrinhos – a despeito da sua
expressada ira.
Esqueçamos o palavrão dito – que ficaria melhor na
boca do Batman ou do Lobo – mas foquemos a silhueta dele, sua representação
corpórea. Os músculos, a altura, o corte de cabelo, a brancura dos dentes – a ridícula
cueca acima da calça. Tudo na imagem nos remete ao Super que conhecemos das
bancas de jornal há algumas décadas, certo? Agora vejamos o outro lado...
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| Esta imagem pertence a Sarah888 |
A arte aqui do lado direito[2]
mostra um personagem razoavelmente famoso dos mangás japoneses: Kenshin –
inclusive, seu anime (ou seja, o desenho animado) chegou a passar no Brasil –
embora a Rede Globo, quando o passou, tenha mutilado seus episódios pela
quantidade de sangue.
Olhando-se
atentamente a imagem ao lado percebemos duas diferenças entre o personagem japonês
e o kyptoniano: a arma e as roupas. O objeto pontiagudo não é utilizado pelo
Homem de Aço, mas outros heróis dos quadrinhos valem-se de armas brancas, como
o cacetete do Demolidor ou as flechas do Arqueiro Verde e do Hawkeye. A questão
das roupas é o principal.
Por um
lado, o uniforme colante do Super-Homem delineia incrivelmente bem o volume dos
seus músculos: ele aparenta seu
verdadeiro tamanho; não esconde sua força muscular, isto é, seu aspecto de
guerreiro, sua violência truculenta, enfim. Os bandidos deveriam temer o Super
apenas por olharem para ele. O mesmo acontece com os outros heróis massificados
oriundos dos EUA: dê uma olhada no Wolverine e responda com sinceridade: você
teria coragem de encará-lo numa briga?
Por outro
lado, a roupa do Kenshin não
demonstra seus músculos – se é que ele os tem[3]. E aqui
repousa a problemática dos quadrinhos japoneses: é comum os protagonistas mais
poderosos serem retratados dessa forma, ou seja, dentro de roupas que os
engolem ou, mesmo, de forma franzina, ilusória, ofuscada. A força deles é
desvelada apenas durante a luta, durante o confronto.
A
composição muscular do kryptoniano condiz com sua força, certo? Quando ele soca
alguém, sua vítima normalmente voa através de alguns carros e paredes –
miraculosamente sem quebrar muitos ossos no meio do caminho, pois é comum os
vilões se erguerem novamente depois do impacto e continuarem a luta. Ele também
consegue sem muita dificuldade arrancar portas de carros, retorcer metal com as
mãos, levantar ou aparar objetos que pesam toneladas, enfim, todas as ações
impressionantes de um super-humano.
Já o
Kenshin... bom, quando olhamos a princípio para ele, sem termos conhecimento
acerca de mangás e sua cultura, não acreditamos que ele conseguiria vencer uma
luta contra um brutucu qualquer. Porém, Kenshin é mais do que Batman: não é
apenas raciocínio. Ele tem, sim,
treinamento físico, disciplina e força bruta. Ele consegue com sua espada
cortar uma árvore se preciso for – mesmo embora sua espada seja diferente: ela
não possui fio na parte de fora da lâmina, pois a personagem prometera nunca
mais matar.
Passados à
parte, lembremos do seriado Cavaleiros do
Zodíaco. Quem acreditaria que o Seiya, logo no primeiro episódio, venceria
o Cássio? A disparidade de tamanho entre os dois era absurda! Porém, não apenas
Seiya venceu o Cássio – e com socos e chutes! – como ainda se mostrou mais
rápido do que o som, assim como seu adversário alguns episódios mais à frente,
Shiryu, mostrou-se capaz de inverter o
fluxo de água de uma cachoeira com um único golpe! Com os exemplos
levantados, quero deixar claro o caráter maravilhoso dos quadrinhos japoneses,
que não perde em nada aos americanos.
Entretanto,
seus personagens são franzinos, com roupas largas, penteados extravagantes ou
exóticos e, algumas vezes, com feições afeminadas. Estes personagens enganam e
provam-se heróicos[4]
apenas durante as lutas, muitas vezes pegando não apenas os leitores mas seus
próprios adversários desprevenidos. Em Yu
Yu Hakusho, por exemplo, Toguro, um brutamontes no nível do Super-Homem,
impressionou-se quando Yosuke conseguiu desferir-lhe um golpe potente.
A questão
aqui é que os heróis americanos, no quesito aparência, são mais diretos-ao-ponto,
isto é, demonstram mais a força que se espera deles nas lutas, seja através de
fisioescultura, se me permitem o termo, seja através de figurinos colantes (ou
armaduras com “músculos”). Existe, portanto, uma verossimilhança quanto à aparência. Diga a verdade: olhando a imagem
do Super lá em cima, se ele socasse seu inimigo e ele não sentisse nada, sendo
este uma pessoa qualquer, você se sentiria traído logo de início ou, no mínimo,
esperaria uma explicação racional por isso, não é?
Talvez não
seja absurdo dizer que essa verossimilhança existe na arte desde o
Renascimento, quando os pintores estudavam anatomia humana para retratar melhor
as pessoas que pintavam. Usavam como modelo as esculturas gregos, outra fonte
de verossimilhança de aparência física. O detalhe é que ambos – a arte grega e
a renascentista – focavam em um ideal:
aquele porte físico era ideal, sonhado, desejado, querido. A indústria dos
quadrinhos resgatou essa idéia e ainda hoje os manuais de desenho sugerem o
estudo anatômico! Claro que há quadrinistas e quadrinistas, mas ainda é
bastante comum vermos os heróis estadunidenses retratados como aquele
Super-Homem da imagem.
O Japão,
por outro lado, apostou no caminho filosófico oriental: a inverossimilhança dos
personagens indica um outro ponto de vista. A intenção do artista oriental não
é simplesmente enganar seus leitores. É claro que surpreende ver o Seiya
apanhar tanto, com um vestuário que cobre tão parcamente seu corpo sendo chamado
mesmo assim de “armadura”, e não morrer – ao contrário: ele se levanta e ainda
vence a luta! Mesmo assim, não é a surpresa a intenção, mas dois ensinamentos
orientais.
Primeiro, não
se deve menosprezar aquele à sua frente. Não é o porte físico que indica a
vitória, embora o uso da força pode
vencer uma luta. A intenção é que a fragilidade deve ser demonstrada para que
se impressione com os feitos desse herói pois devemos sempre lembrar que aquilo
que não é aparente pode ser nossa derrota. Precisa-se cuidar do que não é
visto, do que é escondido ou ofuscado pelas pessoas – sua força interior, por
assim dizer.
Segundo,
qualquer um pode ser assim – se treinar muito para isso. A ideologia do
pensamento positivo, do acreditar em si mesmo etc., pode ser vista na tradição
do orientalismo exemplarmente no longa animado “Kung Fu Panda”: o panda,
protagonista da história, busca o tempo todo um “ensinamento milenar” que daria
a ele poderes plenos de guardião do vilarejo, quando, no fundo, o pergaminho
está em branco. Em outras palavras, seja quem você é que você consegue.
Ambos os
ensinamentos estão inseridos na inverossimilhança dos quadrinhos japoneses,
assim como na famosa história do “estilo do bêbado do Kung Fu”, em que mestres
Kung Fu conseguem vencer lutas mesmo estando bêbados. Enquanto a indústria dos
quadrinhos quer massificar a idéia de que um herói só pode salvar uma cidade
com sua força se ele for extraordinariamente musculoso, a indústria japonesa massifica
a idéia de que precisa-se ser mais reticente quanto a pré-julgamentos feitos
acerca apenas da aparência das pessoas.
E aí: com
qual dos dois lados você concorda?
[1] MIKEMALUK, Superman VS Sentry. DeviantArt, 2008, < http://mikemaluk.deviantart.com/art/Superman-VS-Sentry-99788171>, acessado em 18/09/2011.
[2]
SARAH888, Kenshin Himura.
DeviantArt, 2009, <http://sarah888.deviantart.com/art/Kenshin-Himura-123083330>,
acessado em 18/09/2011.
[3]
É claro que ele tem músculos, já que todas as pessoas os possuem. Minha dúvida
é proveniente da “supremacia muscular visual” do Super-Homem frente ao Kenshin.
[4]
Novamente, é apenas no sentido quadrinístico: heróico enquanto realiza feitos
heróicos e sobre-humanos.


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